ESTRELAS

Como empreender e se ver como uma pessoa empreendedora, por Maite Schneider

Maite Schneider, fundadora da Transempregos, fala sobre como empreender pode abrir portas e mudar vidas quando o mercado de trabalho se fecha.

17h | 27 de agosto 2020 Por Capitã SOS

Criar um negócio tem a ver com se reinventar, com encontrar novas saídas, com criar soluções pra que outras pessoas não enfrentem os mesmos problemas que você enfrentou... O que motiva quem busca saber como empreender varia, mas está dentro de duas possibilidades: a oportunidade - ou melhor, quando você identifica que existe um nicho que você pode atender - ou a necessidade - isto é, precisar ganhar dinheiro por conta, por não conseguir emprego.

Com a crise que a pandemia trouxe, muitas pessoas se viram, de repente, no segundo cenário. Mas não é todo mundo que se enxerga como empreendedora ou empreendedor! "O empreendedorismo tem uma coisa meio elitista, parece uma coisa romântica", reflete Maite Schneider, que é Fundadora da Transempregos e consultora de Inclusão e Diversidade. Nós conversamos sobre a sua história de empreendedorismo, que é voltada para ajudar pessoas de grupos que são considerados minorias - LGBTs, mulheres, pessoas negras e com deficiência - , e aprendi muito mais do que sobre as oportunidades (e sobre a falta delas) que enfrentam até hoje.

Afinal, Maite tem uma visão acolhedora. Acredita que as coisas podem, sim, dar certo, e que as pessoas são agentes das mudanças que querem ver no mundo. Além disso, que empreender é não apenas uma forma de fazer isso, mas de fazê-lo driblando as dificuldades que o mercado de trabalho impõe, e enquanto ajuda outras pessoas e evita que elas passem pelos mesmos problemas.

Aliás, se tem alguém que sabe sobre reinvenção, reinserção no mercado de trabalho e usar uma experiência sua pra ajudar outras pessoas, é a Maite. Ela mesma viu muitas das portas que lhe estavam praticamente garantidas se fecharem quando assumiu sua identidade transexual. Apesar de ter estudado nas melhores escolas, estudado Direito (que trancou na metade por não conseguir estágio), se formado em Direção e falar três idiomas, nunca teve a carteira de trabalho assinada.

'Ninguém é só uma coisa'

Então, o empreendedorismo foi a sua saída. Além disso, sabendo que estava em uma posição privilegiada, decidiu ajudar as pessoas que não tinham as mesmas condições. Portanto, foi natural unir o espírito empreendedor e essa missão de vida. O resultado foi uma série de projetos: além da Transempregos, ela encabeça a Empodera Trans, que é a primeira rede de empoderamento de pessoas trans; o projeto Trans-formação, em parceria com o Google, que capacita pessoas trans em habilidades diversas para o mercado de trabalho e tem aulas em libras e legendadas; e ainda quer criar a Academia de Diversidade, para compartilhar conhecimento.

"A diversidade traz isso na sua essência: aprender a se reinventar", avalia. "E o empreendedorismo também tem esse caminho de reinvenção. Às vezes, a pessoa nem sabe que é empreendedora. Ela fica com medo, acha que é só uma vendedora... Mas ninguém é só uma coisa!".

E isso pode ser aplicado de várias formas. Falando de como empreender, Maite ensina: "tudo que você limita faz com que crie fronteiras onde podiam ter horizontes. O segredo é a diversificação. Seja do seu produto, dos olhares, do reconhecimento de ameaças e oportunidades no seu negócio, dos pontos de melhoria".

Mas, pensando nos grupos minoritários, "não ser só uma coisa" tem outro nome: recortes de exclusão. Uma pessoa é mulher e cadeirante, ou gay e negra. E, dessa forma, as dificuldades se somam. "A percepção generosa que temos que ter com a gente, de olhar para nossas qualidades, é minada. As pessoas excluídas me procuram dizendo que querem trabalhar com qualquer coisa! Quando você aceita qualquer coisa, em pouco tempo você se transforma em qualquer coisa. E você tem que querer mais!", insiste Maite.

Como a atitude importa para empreender

Essa postura reflete o que ela chama de "auto preconceito". Isto é, é a própria crença de que você não conseguirá fazer algo. E, segundo Maite, essa atitude é mais da metade do caminho pra que nada dê certo. "Quando você coloca o 'nunca', o 'só', o 'não consigo', nem precisa da sociedade dizendo. Porque você mesmo já se freou", avalia. "É preciso insistir, mas também acreditar. Afinal, quando você mesmo não acredita nos seus potenciais, é difícil outra pessoa te encorajar".

Por isso, afirma que o primeiro passo é superar essa forma de ver a si mesmo: "quando você vence esse 'auto preconceito', dane-se o que pensam fora, o que o sistema diz, os 'nãos' que você recebe". No entanto, essa é uma jornada individual, e cada pessoa tem sua forma de descobri-la. O importante é saber que sempre dá tempo de começá-la: "você ainda tá aqui. Ainda dá pra fazer", conclui.

O começo de uma revolução

Falando em jornadas pessoais, Maite tem uma certeza: as vivências, experiências, sensações e dificuldades que você encontra e não quer mais que existam no mundo são grandes impulsionadoras de mudanças. E essas mudanças impactam todas as pessoas e começam verdadeiras revoluções. Afinal, quando uma pessoa entende que não é suficiente apenas ela estar bem, começa a mudar também a realidade de quem está ao seu redor.

E a pedra fundamental para isso é o conhecimento. "Você pode não ter família, ter sido evadida do sistema escolar, não ter empregabilidade. Mas o que você adquire de conhecimento, seja qual for, pode te levar pra lugares que nem imaginava", finaliza Maite.

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