ESTRELAS

Do desprendimento ao empreendimento, por Simone Mozzilli

Simone Mozzilli: "Cheguei pra uma cirurgia rápida. Mas acordei na UTI, na mesma em que eu acompanhava as crianças em tratamento oncológico."

13h | 24 de julho 2020 Por Capitã SOS

Banner com foto de Simone Mozzilli e os dizeres "estrela-guia por Simone Mozzilli"

Por Simone Mozzilli

Escrever para uma seção "estrela" já dá aquele medo... Afinal, a última coisa que um paciente oncológico quer é "virar estrela"!

"Mas é Estrela-Guia, Simone!"

Ok, brincadeiras à parte, topei dividir a minha história e contar um pouco da minha jornada de empreendedorismo.

Ela começa quando eu tinha uns 20 e poucos anos, mas não numa garagem, como várias histórias que costumamos ouvir. Afinal, eu não tinha uma garagem, mas o quarto na casa dos meus pais. Então, montei com um amigo uma proposta incrível para o site da Disney e fomos participar da concorrência, na cara e na coragem, disputando a concorrência com agências enormes.

Nosso diferencial? Sermos apaixonados pelo camundongo e não termos muita noção, acreditando que poderíamos ganhar a conta. E ganhamos!

Em seguida, o próximo passo era a visita do cliente ao escritório. Foi uma correria pra pedir a sala do vizinho emprestada e chamar amigos para figuração na “empresa”.

Mas deu tudo tão certo que atendi a Disney por 10 anos. Durante esse tempo, aprendi muito: a falar com as crianças, mesmo aquelas de 80 anos, e a falar sobre dificuldades. Afinal, quem não chorou com as mortes do pai do Simba e da mãe do Bambi?!

"Algo tinha acontecido"

Nesse meio tempo, paralelamente ao trabalho, eu fazia voluntariado com crianças com câncer. E, quanto mais me aproximava, mais percebia a falta de materiais educativos sobre a doença. Então, aproveitando a familiaridade no hospital, aproveitei pra tirar um cisto de ovário que tinha uma chance de 5% de ser câncer. Se fosse, seria estágio inicial.

Cheguei pra uma cirurgia rápida. Eu acordaria algumas horas depois no quarto e iria pra casa. No entanto, acordei na UTI, na mesma em que eu acompanhava as crianças em tratamento oncológico. Tinha cortes e tubos por todo o corpo, e já sabia que algo tinha acontecido.

Em resumo, foi câncer de ovário em estágio avançado, com chances menores de cura. Depois da cirurgia, comecei a quimioterapia e, na segunda internação ganhei um pente do hospital. Sendo que eu já não tinha cabelo por conta do tratamento...

"Eu queria algo que me encorajasse!"

Então, percebi realmente a falta de materiais e a inabilidade deles pra lidar com os pacientes oncológicos: o pente carregava uma informação, e me lembrava que eu não tinha mais cabelo. E, nesse momento, eu não queria algo que me colocasse mais pra baixo. Eu queria algo que me encorajasse!

Enquanto eu fazia o tratamento, dividia minhas descobertas com as crianças: “vocês sabiam que o cabelo cai porque a quimioterapia mata as células que se duplicam rapidamente e, assim como as de câncer, as dos cabelos também tem essa característica?!”

Com isso, falávamos abertamente sobre todos os assuntos. Eu contando minhas novidades, e as crianças contando as delas, com os profissionais da saúde no meio de campo, nos ajudando a entender tudo e muitas vezes me chamando pra conhecer outras crianças em tratamento.

Até que chegou o dia em que não dava mais pra tocar a produtora, já que eu passava mais tempo no hospital do que no escritório. Então, fechei.

"Muitas vezes, não falar sobre o assunto é ruim"

E junto a pacientes, profissionais da saúde e amigos criativos, produtivos e empreendedores, abrimos o Beaba. Que é o be-a-bá do câncer, um instituto com a missão de desmistificar a doença e informar de maneira clara, objetiva e otimista, utilizando todos os preceitos de Tecnologia de Informação para empoderar o paciente, aumentar a aderência ao tratamento e melhorar sua qualidade de vida.

Porque, muitas vezes, não falar sobre o assunto é ruim. Não ter materiais e estratégias de enfrentamento é ainda pior. Sabendo que existia esse espaço na área da saúde, eu tinha duas escolhas: empreender ou me desprender.

Então, me desprendi de clientes maravilhosos como o Walt e fui empreender. Quem sabe um dia não seremos a Disney da saúde?! :)


Simone Mozzilli é presidente e fundadora do Instituto Beabá (be-a-bá), ONG que tem a missão de desmistificar o câncer e informar de maneira clara, objetiva e otimista sobre a doença e o tratamento para crianças, adolescentes e seus acompanhantes. Ela recebeu em 2019 o prêmio Trip Transformadores.

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